BNDES e Prefeitura do RJ avançam na consolidação do Distrito Cultural Pequena África

Rio investe R$ 23 milhões no Distrito Cultural Pequena África

Uma parceria entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) marcou o início de uma nova fase para a Zona Portuária carioca. Por meio da Iniciativa Valongo, foram anunciados investimentos de R$ 23 milhões — a serem captados entre fontes públicas e privadas — para viabilizar a estruturação do Distrito Cultural Pequena África. O plano contempla a remodelação da Praça dos Estivadores e a abertura de três novos polos dedicados ao conhecimento, à arte e aos negócios locais.

Praça dos Estivadores terá revitalização completa

Com um aporte municipal fixado em R$ 2 milhões, a Praça dos Estivadores será o primeiro ponto a passar por reformas de requalificação urbana. O objetivo é transformá-la em um espaço de convivência seguro e confortável para pedestres, trabalhadores e visitantes da região.

As intervenções contemplam a instalação de novas áreas de sombra, bancos, canteiros verdes e um sistema moderno de iluminação voltado a incentivar o uso noturno com segurança. O espaço continuará recebendo feiras, atividades comunitárias e apresentações culturais. Dois totens interpretativos serão instalados: um com o mapa e os pontos de interesse do território e outro dedicado à memória das lutas dos trabalhadores portuários e à formação afro-brasileira local.

A localização estratégica conecta a praça a marcos fundamentais da memória carioca, como a Casa Tia Ciata, a sede do Afoxé Filhos de Gandhi, a Casa João de Alabá e os Jardins Suspensos do Valongo.

Novos equipamentos culturais na Zona Portuária

Além das intervenções de infraestrutura urbana, acordos de cooperação técnica estabeleceram a implantação de três novos centros culturais e econômicos no território:

  • Biblioteca Machado de Assis: fruto de parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, o projeto prevê a reforma de um imóvel próprio do órgão com orçamento de R$ 8 milhões a captar. O endereço terá auditório, salas expositivas, acervo focado na literatura afro-brasileira e terraço com café.
  • Conservatório da Música Preta Brasileira: em cooperação com o Instituto Cultne, a unidade ocupará um terreno desapropriado pelo município no Largo da Prainha. Com aporte previsto de R$ 8 milhões, o centro integrará escola de formação, estúdios, palco e mirante para registrar e difundir ritmos negros.
  • A Fábrica: voltada ao empreendedorismo afrocentrado e à economia solidária, a iniciativa desenvolvida junto à Fundação Darcy Vargas terá R$ 5 milhões a captar para capacitação técnica, apoio a negócios e venda de produtos locais.

Construção coletiva com foco em diversidade

O desenho das intervenções resulta de consultas públicas com pesquisadores, moradores e entidades civis que atuam na Saúde, Gamboa e Santo Cristo. A coordenação técnica do projeto é realizada junto ao Consórcio Valongo Patrimônio Vivo e contou com a participação do Comitê Gestor do Sítio Arqueológico Cais do Valongo.

Entre as diretrizes implementadas para o desenvolvimento das propostas, determinou-se a presença mínima de 30% de profissionais negros nas equipes contratadas, letramento racial obrigatório para os envolvidos e concurso exclusivo para urbanistas e arquitetos negros. O plano geral prevê ainda estudos para melhorias em vias como a Rua Camerino, a Praça da Harmonia e a Promenade do Valongo, além de intervenções de mobilidade ativa e preservação ambiental.

Memória e valorização da herança afro-brasileira

Concebido sob o formato de museu de território, o distrito busca conectar o patrimônio material ao legado vivo de resistência popular que formou a identidade da capital. Entre 1774 e 1831, o Cais do Valongo — hoje reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco — recebeu cerca de 1 milhão de africanos escravizados, consolidando-se como um ponto central da história das Américas.

A integração entre passado e futuro visa potencializar o fluxo turístico, que hoje já supera outros cartões-postais da cidade, assegurando que o desenvolvimento econômico permaneça atrelado à preservação da identidade cultural, comunitária e histórica da Pequena África.